domingo, 27 de fevereiro de 2011

CICLICAMENTE...INDEFINIDAMENTE


Pintura de Andrew Atroshenko

No silêncio...
Na  quietude de um gesto...
Um olhar que se agarra...
Um gesto que se recebe...


Na intimidade...
Palavras que se mermuram...
Corpos que se entregam...
Fusão...

Na saudade...
Alimenta-se a lembrança...
Vive-se hoje o que foi ontem...
Recordação....

No sonho...
Sublima-se o desejo...
Materializa-se a paixão...
Transformação...

Na vida...
Deseja-se!
Ama-se!
Perde-se!
Ciclicamente...indefinidamente...

EME

EM DUAS RODAS

sábado, 26 de fevereiro de 2011

UM ABRAÇO AO ENTARDECER

Ponte das Artes - Paris ( foto gentilmente cedida por Simão Carvalho)

Não temos nome!
Somos simplesmente EU e TU.
Ao entardecer, numa ponte qualquer, "EU" olha o rio que passa, sereno, preguiçoso, cansado de tanto correr.
A luz, de um fim de tarde qualquer, ilumina as àguas desses rio, dando-lhe cores de prata, como se vestisse mantos bordados.
Debroçada nessa ponte, "EU" fecha os olhos e abre os braços, qual pássaro no prelúdio de um vôo livre, sem destino...
"TU" como brisa suave e fresca, chegas!
"EU" sente o cheiro dessa aproximidade fisíca, de pura paixão...
"EU", Inerte...imóvel, apenas ouve a sinfonia acelarada de um coração que bate mais forte.
"TU", lentamente, suavemente, entrelaças teus braços, como correntes, na cintura fina e delicada do "EU".As tuas mãos, cruzam sobre o ventre de "EU", como um cadeado que sela dois corpos, num só!
"EU" sente "TU"..."TU" sente "EU"...Juntos em simbióse perfeita, absolutamente perdidos neste abraço, esquecem que existe o mundo para além daquele momento.
Tudo  desaparece...não há ponte, não há rio, não há luz, não há vozes...apenas existe o "EU", o "TU" e um abraço ao entardecer, repleto de desejo e fogo de uma paixão suspensa.
E num tempo que não se mede, dois corpos assim entrelaçados, dois rostos olhando na mesma direcção, sem palavras, sem gestos, amam-se intensamente, profundamente...
Num abraço, "EU" e "TU" somos só "UM" !
...
Quando "EU" abre os olhos, está só em cima de uma ponte!
Percebe que aquele abraço ao entardecer tão perfeito, tão único, apenas tinha existido na forma de um sonho!
E, algures, num lugar distante, existe o "TU" que também sonhou com um abraço ao entardecer!
EME

O MANIFESTO DA EME - ACREDITO!

                                Foto( autor desconhecido)

Quero curar as feridas que sangram de um mundo gasto, perdido, incolor!

Perdemos algures no nosso percurso, o horizonte de um destino comum.
Não me revejo neste estado de indeferença e de distanciamento.Quero acreditar que ainda é possível ver um estranho ajudar outro estranho; quero acreditar que no presente, olhamos o passado com orgulho, construíndo um futuro com honra; quero acreditar que a minha verdade não é mais verdade que a dos outros e que na minha essência de Ser, está a Unidade do Todo.
O horizonte que olho está manchado pela vergonha de uma história pintada por sangue, filha do ignóbil e corrosivo lado negro da alma humana.
Recuso a resignação, recuso a aceitação, recuso o lado fácil da fatalidade!!!
Quero gritar a revolta; quero desventrar a minha e a tua indiferença; quero amordaçar a violação do sonho; quero aprisionar numa jaula, a violência de um encolher de ombros perante o sofrimento.

Jamais aceitarei que uns sejam postos à beira da estrada para que outros possam passar por ela!!!!!
Jamais aceitarei que Alguém se torne em Ninguém para que outro Alguém brilhe mais!!!!
Jamais aceitarei que haja quem olhe para o chão porque nada vê no horizonte!!!!
Jamais...jamais....jamais...
E enquanto acreditar que o pouco que faço, mesmo que seja do tamanho de um grão de areia num imenso deserto, transforma para melhor, a vida de alguém, continuarei a ACREDITAR que é possível MUDAR!
E. se todos pensarem assim, o grão de areia terá a validade de Gigantes Dunas num imenso deserto habitado por todos nós!
EME

PORQUE NÃO QUERO QUE ME AGRADEÇAS

( Imagem do filme "Avatar")



Se te dou um sorriso é porque estás aí para o receber!
Se te dou uma palavra amiga é porque a mereces!
Se te ofereço um girassol é porque sei que precisas de luz nos dias sombrios!
Se te ofereço o meu silêncio é porque o pediste!
Se te dou o pouco que tenho é porque muito mereces receber!

Por isso...
Nunca me agradeças o que te dou com o coração...

Porque....
Saberás ver a verdade do meu sorriso!
Saberás escutar as minhas palavras!
Saberás cuidar do meu girassol!
Saberás escutar o meu silêncio!
Saberás transformar o pouco que em muito, se transformará!

E, se mesmo assim, quiseres agradecer...
Faz à vida,
Faz a ti próprio(a),
Faz ao destino
Que quis cruzar as nossas vidas paralelas
E , num breve momento,
Demos conta que existiamos!

EME
( Escrito a 4 de Dezembro de 2010)

ENCONTRO

                                   Pintura de Andrew Atroshenko

Acordei...

Cheirei a espuma que corria no meu corpo
Matei a sede da minha pele
Perfumei-a...

Vesti meu corpo
De finas sedas...

Quis-me elegante...
Quis-me sensual...

Saí para te ver...

Senti nos meus braços desnudados
O teu olhar...
Quente...

Fiquei imóvel!
Deixe-me penetrar por esse olhar
Que meu corpo acariciou
E a minha alma embalou.

E, na manhã
De uma primavera a despertar,
Tornei-te meu amante...
Para que todos os dias quando acordar,
Teus raios me possam abraçar!

EME

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

À DERIVA


Eis-me assim,
despojada, vazia
no caminho da minha loucura.

Sou um barco sem rumo!
Sigo ao sabor do vento que passa
das tempestades que rasgam as velas do meu ventre.

Os ponteiros da minha bússola
inverteram as leis do magnetismo
e sigo para sul, sem norte

Os mares ...
Os oceanos...
Tornaram-se meus amantes;
As marés minhas guardiãs;
E nas tormentas da minha loucura,
não encontro a terra firme
para o meu barco ficar...

...

Pego na minha loucura,
irmã da minha alma,
sou eu a outra
e a outra é o ninguém que se define
no vazio da escuridão

....

Quero o tudo e o nada
Quero a unidade de Ser
Quando Ser se define múltiplo

Rasgo-me
Desventro-me
Desfloro-me
E perco-me sem destino...
Sou  apenas um barco à deriva
num oceano que ninguém conhece, apenas eu!

EME
Foto(autor desconhecido)

O CARROSSEL DA BETY

(Foto ofercida pela minha amiga Bety - Carrossel em Paris em  frente da sua casa) 

Para ti Bety


Vestes as cores da minha infância
Onde estou de cabelos presos em fita de seda
E num vestido de chita, tingido de flores
Devolves-me o soriso da inocência

No carrosssel da Bety
Voltei ,
Regressei ,
ao tempo em que numa bola de sabão,
lia as cores do meu sonho

Neste lugar de magia,
o meu pensamento ficou preso!
Quero de volta algodão doce
e nele adoçar as horas que agora passam.

E no carrossel da Bety
meu corpo de mulher madura
repousou os sonhos de menina
E, por breves momentos
Fui criança!

EME

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A FÓRMULA PERFEITA DO AMOR


20 de Fevereiro de 2011 - 57 anos de amor

Por cada segundo desta caminhada, a maior dádiva ...o vosso amor!
Por cada ruga nestes rostos, a maior entrega...a vossa luta!

Se tenho fé é porque vocês fazem-me acreditar,
Se tenho alegria é porque vocês plantam rosas no  meu caminho
Se tenho muito amor para dar é porque vocês dão-me a dobrar
Se sou lutadora é porque vocês mostram-me que é possível renascer todos os dias
Se sou o que sou é por vocês são como são!

(Dedicado aos meus pais que completam hoje, 57 anos de vida em comum)
EME


sábado, 19 de fevereiro de 2011

VIAJANTE DO MEU CARROSSEL


Encontraste-me sentada no meu carrossel colorido que andava à roda ao som de uma melodia imaginária.
Sorriste para mim...piscaste-me o olho...acenaste-me.
Saí tonta do rodopio do carrosel e vi-te em duplicado.
Eras um : sorridente, malandro, elegante .Parecias que vivias numa feira de diversões.Trazias nas mão doces que distribuias a quem se cruzava contigo.
Eras outro : olhar triste, sério, ferido.Estavas elegante na mesma, mas os ombros levemente descaídos.
Parecia que carregavas as penas do mundo.Numa mão, tinhas uma mala, pequena.A outra mão, aberta, vazia.
Na minha visão distorcida, vi-te criança feliz e vi-te homem sofrido.
Chamei por ti!Vieste em duplicado.
Pedi-te então que subisses para o meu carrossel.
Perguntaste:
- Qual deles queres?
Respondi-te :
 - O homem, porque a criança ainda é feliz!
Deixaste então a criança sentada num banco de jardim.Dei a mão ao homem e puxei-o para cima de um cavalinho de pau.
O meu carrossel começou a rodar...a rodar ...e a música imaginária embalou-nos!
De repente, tu , homem, começaste a sorrir.Endireitaste os ombros, abriste os braços e com os olhos fechados, deixaste que a ondulação do meu carrossel levasse as tuas penas, os teus fantasmas.Vi-te aos poucos saborear a leveza do teu ser.
Quando o meu carrossel parou, ficaste imóvel como se esperasses nova volta, nova viagem!
Chamei por ti...quando me olhaste, eras o homem com a criança dentro de ti.
O feitiço do meu carrossel tinha tomado conta da tua alma.
Perguntei-te :
- Onde está a tua mala?
Respondeste-me :
- Dentro do meu coração!
- Diz-me - perguntei-te - o que tinhas nessa mala?
- A minha vida.Carregava-a como um fardo, fora de mim.Agora, foi para o meu coração e a criança que vive lá dentro vai adoçá-la com os doces que tem na mão!
E, tal como te vi chegar ao pé do meu carrossel, vi-te partir, mas agora via apenas um....TU!

EME
Tela de Lora Shelley

CASEBRE ABANDONADO

Cheguei a ti,
cansada...
exausta...
morta.


Vi em ti
o reflexo de mim.

Já houve tempo em que eramos belas, firmes, desejadas, amadas.

Nossos corpos acolhiam outros corpos!
Neles se aconchegavam em noites de temporal,
amantes em desejos proibidos.

Na primavera,
A sombra dessa àrvore,
antes lexuriante,
risos de criança,
faziam cócegas nos nossos corpos.

Fomos nos meses de calor
a brisa ao entardecer...
e corpos transpirados
Refrescavam em repouso!

Fomos tudo para todos!

Passou o tempo...
E o tempo ingrato
cravou um punhal no meu e no teu corpo.

Somos hoje casebres abandonados,
desventrados
desnudados de vida...

Somos apenas o momento fotográfico, a preto e branco,
de uma vida colorida que o tempo transformou!

EME
Foto gentilmente cedida por José Neves

MENINO DE OLHOS TRISTES

Este menino que me olha, tem a cor da noite sem luar!
Tem rosto sem sorriso...
Tem a alma escondida...

Olho-te...
Vejo-te...

Que histórias tens tu, dentro desse olhar?

Quero pegar nesse olhar
E  no meu colo o  embalar!
Quero pegar no teu rosto
E no meu abraço,
Contar-te histórias de encantar!

Quero-te dizer que os homens não matam...
Quero-te dizer que os homens plantam na tua terra,  sementes de esperança...
Quero-te dizer que os homens trazem nas mãos, armas carregadas de fraternidade...
Quero dizer que amanhã quando acordares, os campos estarão repletos de minas floridas de girassóis!
Quero-te contar uma história de sonhos para que o teu acordar não seja um pesadelo!

No teu olhos quero ver o brilho da inocência!
No teu rosto quero ver o sorriso da justiça!

Deixa-me , menino de olhos tristes,
Resgatar o teu olhar
Para que eu possa continuar a acreditar!

Singelo e simples contributo à fotografia tirada por José Neves que através da sua sensibilidade artistica, captou este olhar, absolutamente deslumbrante.

EME
( escrito em  6 de Dezembro de 2010)

MOTIM

 Palavras...
 Emoções... Risos...
 Lágrimas...
 E a vida corre
 Serena , segura, certinha...

Rasgam-se as ideias...
Soltam-se as palavras
Baralham-se as emoções.
E a vida corre
Turbulenta, instável, confusa...

Peguei na espada da coragem
Na corrente da minha liberdade...
E na caravela da vida,
Juntei os meus sonhos
E fiz um motim!

Não quero a serenidade do fácil,
Não quero a certeza de um amanhã
Não quero emoções previstas
Não quero percuros direitos!

Fiz um motim....
E na caravela da vida
As tempestades são saboreadas
Como se fosse o último momento do resto da minha vida!

Fiz um motim...
E sou mais feliz assim...

EME
(Escrito a 11 de Dezembro de 2010)


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

DIÁRIO DE UMA TURISTA NA PRÓPRIA CIDADE III

Epílogo
( dedicado à "Senhora de muitos colares")

Chegaram ao fim!
Duas semanas sem relógio, sem agenda, ao sabor da minha vontade.
Foram mesmo férias!
Deixei para trás as preocupações, o stress do trabalho, a monótona rotina do dia-a-dia e, por duas semanas, fui amante de olhares indiscretos.
Pasmei-me com pequenas coisas que estavam logo ali e, por falta de tempo, nunca tinha reparado.
Vi cores, senti cheiros e por cada momento vivido, o prazer da "primeira vez".
Quis guardar na memória da minha companheira inseparável, lugares, instantes de vida, olhares que se cruzaram neste meu tempo, sem pressa.
Desta "viagem" retive a imagem de uma mulher que, sentada num banco, tinha por companheira a "sua" loucura.
A minha presença com máquina fotográfica , inibidora, fazia-a rodar instintivamente.Oferecia-me as costas como se me dissesse : "Não és nada para mim!".
Perversamente, escondi-me e deixei que a minha presença fosse um fantasma.
Então, " A Senhora de muitos colares"( apelidei-a assim), pegou numa caneta e com dezenas de pequenos papeis nas mãos, falava, escrevia e deixava voar o papelinho.Continuando na minha perversidade, corri e apanhei desses papéis.Queria saber o que escrevia esta senhora, queria saber os seus segredos.
Gelei!
Fiquei petrificada com o que vi!Num papel amarrotado, debotado, estava desenhado um coração , com linhas incertas, distorcido, sofrido!
Meus olhos encheram-se de lágrimas...ali à minha frente, esta uma mulher,enterrada na mais profunda loucura, punha em pequenos papelinhos o seu coração e largava-o ao sabor do vento, talvez para assim, encontrar o seu dono!
- Que coragem "Senhora de muitos colares"!Ao contrário de muitos de nós que escondem o coração para que ninguém o veja, o sinta, tu ofereceste-o desinteressadamente.Sabes que mais "Senhora de muitos colares"? Feliz daquele que o encontrar!

E assim, acabaram as minhas férias.
Não voei para outro país...
Não conheci novas culturas...
Não fiz malas....
Mas vi tudo com os "olhos" do coração e isso fez toda a diferença!
EME
Foto : EME

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A MINHA BIBLIOTECA

Tenho a vida numa bibloteca!
Nas prateleiras da memórias estou Eu, estás Tu, estão Eles.
Cada livro tem um nome; Cada nome uma história; Cada história uma vida!
Sento-me vezes sem conta, junto à janela do meu pensamento e, sem prioridades, abro um livro de cada vez!
Leio romances, leio aventuras, leio suspense, leio...leio...leio.
Às vezes, sem contar, vêm parar às mãos, os livros que contêm histórias de sonhos!
Aí, perco a noção do tempo e deixo-me ir!
Encontro sonhos de todas as formas, de todas as cores!
Julguei que só o livro com o meu nome, estava repleto de sonhos!Como me enganei!!!
Vi que querias resgatar o passado e dar-lhe outra forma.Vi que querias encontar outra verdade para te reconstruir novamente.Vi que querias quebrar o espelho que reflete a imagem da tua insatisfação.
Afinal, sou Eu, és Tu, são Eles que estão aqui...nestes livros imaginários, com sonhos tão reais!
Mas, já tenho livros envelhecidos, cheios de pó.Não os leio.Falta-me a vontade !
São livros de decepções, de tristezas, de perdas!Esses livros cataloguei-os como "OS DISPENSÁVEIS" e coloquei-os na secção da reciclagem.Brevemente, pegarei neles, colocarei na minha máquina do esquecimento e vou transformá-los em papel colorido.Com ele, enfeitarei a janela do meu pensamento.
E,quando me sentar junto dela, olharei para as cores e pensarei : como foi bom ter sofrido, como foi bom ter-me depecionado, como foi bom ter perdido...Assim, com tudo isso, a minha janela pode ter cortinas de memórias que enriquecem a minha existência.
Tenho a vida numa biblioteca .Nela existe uma janela decorada com cortinas coloridas...Eu, Tu e Eles somos livros, livros à espera de serem desfolhados e lidos...resumindo. descobertos!

EME
Tela de Picasso " Mulher a ler"

NADA PERCO, TUDO TRANSFORMO !

Gosto da ideia que na vida "Nada se perde; tudo se transforma!".
Dá-me uma certa serenidade pensar que sentimentos, pessoas, histórias não morrem, adquirem apenas outra forma de serem vividas e sentidas!
Muitas vezes dou comigo a pensar que a minha vida é um conjunto de transformações e nunca de perdas e, esse pensamento, projecta em mim uma verdade única : aquilo que sou no presente é o somatório da reciclagem que fiz, sobre todo o meu passado.
Vejo-me,então, uma mulher madura que reciclou a sua meninice, que reciclou a sua juventude, que reciclou uma vida cheia de conforto, bem-estar, numa vida cheia de amor, dádivas, partilhas.
A impotância dos bens materiais foram transformados na importância de pequenos "quês que só o coração entende.
Julgo que na maioria das vezes, somos capazes de lidar com aquilo que apelidamos de perdas.Falamos de amizades que se perderam, de amores que acabaram, até de referências importantes na nossa vida que se apagaram.
Pegamos no nosso instinto de sobrivivência e reformulamos, reconduzimos aquilo que nos faz sofrer e, seguimos em frente.
Só há um tipo de perda que não pode ser reciclada porque é contra natura : a ausência de um filho por ter partido antes de nós.Isto é algo absolutamente impensável, distorcido, incompreensível.
Pela lógica da vida, os pais originam os filhos e os filhos, porque mais novos, devem suceder aos pais.Inverter esta sequência natural é subverter a razão das coisas.
No entanto, também aqui, neste fosso da irracionalidade, já presenciei a verificação da máxima "Nada se perde; tudo se transforma!".
Conheço pais que , na mais profunda dor, conseguiram trnsformá-la, na mais dedicada entrega ao sofrimendos outros.Tiveram a coragem de tornar a vivência da dor, em vivência de amor.
Houve uma frase do filme África Minha que me marcou profundamente.Quase no final do filme, quando Karen Blixen depois de ter perdido o amor da sua vida, a sua casa, os seus bens,está sentada a jantar apenas na companhia de caixotes, despojos de uma vida, onde julgava que tudo era seu e certo, recebe a visita de Denis Hatton e diz-lhe, mais ao menos isso:
- Aprendi a fazer um teste a mim própria.Quando julgo que já não sou capaz de aguentar mais, esforço-me e imagino algo ainda pior.Aí verifico que sou capaz de aguentar tudo!
Aqui está!
Somos capazes de tudo, até de aguentarmos o impossível porque no fim, pegamos nas perdas, no sofrimento e reciclamos, transformamos, até o cansaço chegar e levar-nos a alma!
EME
Tela de Virgilio Cunha "Nada se perde tudo se transforma

domingo, 13 de fevereiro de 2011

CAMINHOS!

Ando por uma estrada
sem fim à vista.
Em câmara lenta...
Passa o vento,
Vem o sol,
Cruzam -se silhuetas,
Sombras,
De outras estradas.


Sigo o meu caminho....


O destino que me dê...
A verdade de um momento.
A certeza de um olhar.
Uma mão para agarrar.


Quero deixar o rasto
 um trilho
E no mar naufragar...

EME
Foto : EME

SOU ALÉRGICA....

Tenho uma certa "alergia" aos dias comemorativos tais como : dia da Mulher, dia da Criança, dia S.Valentim, Halloween e por aí a fora.
Quanto ao dia da Mulher que me desculpem as mulheres, mas nesse dia quero ser tudo menos mulher.Aproveitando a celebração, as mulheres saem e pensam que nesse dia tudo lhes é permitido.Perdem a postura e num desvaneiro de uma suposta emancipação, tornam-se vulgares em jantares e festas, onde a componente sexual está mais presente que a própria essência desse dia!
Será que as mulheres sabem porque se comemora o "Dia da Mulher"?
Será que as mulheres, em esteria na presença de um musculado striper, esquecem-se que por causa deste dia, existiram mulheres que foram presas, aniquiladas?Não sei se sabem e fico triste por pensar que se comemora exactamente a antítese do verdadeiro sentido de tão grande conquista!
Quanto ao Halloween, importamos que tradição que não é nossa.Gostamos do que vem de fora e, então, lá vemos as nossas crianças andarem mascaradas e as lojas encharcadas de abóboras, bruxinhas e bombinhas de mau cheiro!E viva o negócio!
O dia da Criança...bom aqui o assunto adquire contornos natalicíos e , se por acaso, chegamos a casa sem uma lembrança para os filhotes, parece que cometemos um crime!
A hipócrisia reina: neste dia , debates, grandes discursos e muitas actas de boas intenções marcam a data para, no dia seguinte, continuarmos a ver crianças que a única refeição que fazem é na escola, que no hospital uma mãe diz ao médico que aquelas marcas são das quedas que o menino dá, protegendo o monstro que se deita com ela...mas Viva o negócio, o dia foi bem comemorado!!!!

E por ainda adiante.

Dia de S.Valentim....são os hotéis com programas especiais "Dê uma noite especial à sua amada!"; "Faça uma escapadela e surpreenda-o!"; "Jante num ambiente romântico e ofereça flores!", etc, etc! De repente, num só dia, consumimos todas as formulas que o Amor precisa em 364 dias.Resultado: ficamos enjoados!!!! E, sem esquecer a máxima...E viva o negócio!

Reformulo a minha frase inicial : não tenho alergia em comemorar o dia em que MULHER gritou BASTA! e foi ouvida; não tenho alergia em comemorar o dia em que os direitos da CRIANÇA foram definidos como universais; não tenho alergia em comemorar o AMOR e a PAIXÃO porque dá à Razão a magia que precisa.
Sou apenas alérgica em ver que a maioria das vezes, subverte-se o sentido das coisas e dá-se -lhe um carácter ignóbil!
 E já agora ...VIVA OS DIAS COMEMORATIVOS...VIVA O NEGÓCIO!

EME
Tela de Kandinsky "EFEMÉRIDE!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A IMPORTÂNCIA DE TER PESO A MAIS!

Iniciamos a vida adulta, subjugando a nossa vontade à fúria de viver e partimos à aventura!
Tudo é consumido, devorado, sem tempo para saborear!Queremos viver intensamente à velocidade da nossa imaginação.
E, assim, o tempo corre velozmente! Não há tempo, apenas energia explosiva de um vulcão em ebolição.
Chegamos então aquela idade em que pegamos numa balança e pesamos o "corpo" da nossa existência.
Aqui, ao contrário da elegância do nosso corpo, queremos estar gordos, queremos estar pesados de vivências, de marcas para que a nossa vida não seja leve, sem história.
O tempo adquire, então, outro significado : é saboreado quase fisicamente e, cada segundo, transforma-se num tempo eterno.E, afinal, o que muda?
Com a idade vem aquela magia de sabermos olhar o mundo , não como um todo, mas como pequenos detalhes que fazem a diferença.Abandonamos os grandes eventos e passamos a querer pequenos pontos coloridos a iluminar o nosso caminho.
"Pesei" a minha existência! Estou gorda...pesada!
Tenho peso a mais do Amor que recebi, da Paixão que vivi, da Amizade que construí!
Esta "gordura" gasto-a todos os dias do resto da minha vida, num olhar que recebo, num abraço que dou, num poema que escrevo.
Estou a chegar aos 50 anos!
Costumo brincar dizendo que vou parar o relógio e ficar para sempre nos 49 anos!
Que tola que sou!!!! Se parasse, perderia a hipótese de aumentar o peso da minha existência .Ficaria sem a possibilidade de saborear ainda mais , cada momento, cada detalhe que a vida tem para me ofertar.
Quero continuar ...quero "cheirar" não todos os cheiros, mas um  de cada vez; quero "saborear", não todos  os sabores, mas um de cada vez, quero "olhar", não todas as coisas, mas cada promenor de todas elas e, quero principalmente, "viver", não tudo de uma vez, mas cada segundo como se fosse o último da minha existência!
EME
Pintura de Henri Léger

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

QUERO!

 Quero entender...

Os olhares sem vida
As mãos vazias escondidas pela vergonha
Os pés calejados que pisam areia sem deixar marca
Os rostos mascarados pela indiferença!

Quero entender...
Porque alguém não tem nome
Porque alguém grita e ninguém ouve
Porque alguém sofre e ninguém sente!

Quero entender...
A solidão de noites frias
A saudade da ausência
A partida sem regresso!

Quero entender!
Quero entender...
Para que o meu olhar tenha sempre  luz
Para que as minhas mãos estejam sempre abertas para dar
Para que o meu rosto tenha sempre marcas do meu sentir
Para que os meus olhos tenham sempre lágrimas para cair!

Quero entender...
porque sem isso..
Sou apenas um rosto que se mascarou para sair à rua!

EME
                                             

DIÁRIO DE UMA TURISTA NA PRÓPRIA CIDADE III !

Portimão, 7 de Fevereiro 2011

A minha companheira de férias

São 0h32m!
Reina o mais profundo silêncio!
Ardem os últimos troncos na lareira. Já nem aquecem!Estão ali pequenas brasas, já vestidas de cinza, apenas a fazerem-me companhia.
Não tenho sono! Estou sem pressa.Quero saborear este momento de forma serena, suave!
Os dias de férias passam lentamente!
Faço companhia à minha máquina fotográfica e ela retribui-me a dedicação com uma lealdade inquestionável.
Tornamo-mos intimas...profundamente intimas!
Saimos juntas sem destino!
Os meus olhos guiam-me e a emoção escolhe o momento.
Aí, pego delicadamente nela, coloco-a junto a mim e, em simbiose perfeita, olhamos na mesma direcção.Nesse momento, perco a minha vontade e entrego-me, qual amante em plena explosão de desejo, e deixo que me conduza.Num segundo , pelos seus olhos, vejo aquela onda, aquela gaivota no telhado de um velho casébre, as maravilhosas chaminés tapadas de ninhos de cegonha, vejo...vejo...vejo...
Num clic, o éfemero eterniza-se !O que era passageiro ficou agora gravado na memória da minha companheira de férias!
Hoje, assistimos juntas, à paixão no topo de uma chaminé!Este momento intimo, profanado pelos nossos olhos, mostrou-nos o quanto é maravilhoso a fusão de dois seres.
Assistimos ao desvaneio amoroso de um casal de cegonhas que, sem saberem que estavam a ser observadas, deram largas à sua paixão.
Ficamos juntas, em silêncio, espreitando!
E, no momento em que tudo era perfeito, apenas o som de um clic, trouxe-nos de volta à realidade.
Agora, na memória da minha máquina fotográfica está registado para sempre, um segundo que vale todas as horas do dia!
Estou de férias!Sem agenda!Sem programas!
Amanhã novo dia, nova viagem sem destino!
E, quando me perguntarem como foram as minhas férias, responderei:
- Inesquecíveis!Encontrei um amor para o resto da vida!

EME

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

DIÁRIO DE UMA TURÍSTA NA SUA CIDADE! II

Portimão, 5 de Fevereiro 2011

Continuo de férias!
Sem relógio, sem agenda!
Apenas tenho a companhia da minha vontade!
Férias originais estas!50% da familia está de férias, os restantes 50% a trabalhar!
Assim, à hora de jantar partilhamos experiências, diversificamos a conversa.De um lado :
- Hoje tive uma reunião , mais um projecto! diz o pai!
- A prof. hoje estava uma chata! diz o filho mais novo!
A conversa dos 50% que estão à deriva, sem horário, é muito mais banal!
 - Hoje tirei umas fotos fantásticas.Já começo a perceber a coisa!Gaba-se a mãe!
 - Que saudades que tnha da minha alegre casinha!Exclama o filho universitário surfista !
 Reina a harmonia, com os que nada fazem. a apoiarem os que agora, tudo fazem!
 E, assim, nesta mistura de experiências, lá seguem os meus dias de descanso absoluto, numa paz quase assustadora!
Lembrei-me ontem, sentada na praia que, há exactamente 4 anos, pelas 14h, estava estendida na neve, no meio de uma pista de ski, com uma fractura do perónio! Em La Mongie e, por burrice minha, um snowborder choca comigo e...zás! Tudo o que se passou entre a hora do acidente e as 21h, momento em que cheguei ao hotel ,junto da familia e amigos, foi digno de um filme de terror.Mas as férias lá continuaram com a perna em gesso e, à boa maneira da  Elsa, aproveitando cada momento e, neste caso, até que eram excelentes, já que era alvo de todas as atenções e mimos!
Agora, sentada na praia, relembrava-me dessas férias num país estrangeiro e sorria!
Não tenho skis nos pés, não estou vestida a rigor para enfrentar o frio!
Estou com um livro nas mãos, máquina fotográfica pronta( a minha companheira de férias), praticamente despida, sentada numa toalha e o sol a acariciar a pele!
Coloquei outro olhar nos meus olhos!Reparo e admiro, como se fosse a primeira vez, o mundo que me rodeia.Sinto-me realmente de férias à descoberta de coisas novas!
Espanto-me ! Rio-me! Clico na máquina vezes sem conta e corro para casa para partilhar as minhas fotos.Fico orgulhosa e digo:
- Estou a ficar um pro!!!!!Olha esta paisagem ...Olha a foto da ponte... Olha esta da gaivota!
 Diz o meu filho:
- Mamã mas essa praia...estamos fartos de ir lá!Nunca tinha reparado que era tão bonita!!!
É isso mesmo, meu filho!A diferença não está naquilo que olhamos, mas sim na forma como o fazemos!

Estou de férias!
Sem relógio!
Sem agenda!
Apenas com a minha vontade de quer OLHAR de forma diferente aquilo que julga VER!E aqui reside toda a diferença : como diz o Princepezinho:
"O que é essêncial é invisível aos olhos!"
 EME
                                  

DIÁRIO DE UMA TURISTA NA PRÓPRIA CIDADE!

 DIA 2 DE FEVEREIRO 2011 - 1ºDIA

Comecei hoje a gozar as minhas merecidas férias!
 Força das circuntâncias, terei que as gozar por cá!
 Depois de meses de trabalho, stress inerente ao mesmo, rotinas diárias, só o facto de não ter horários para cumprir, já é por si só, uma benéfica mudança!
 No entanto, todos sabemos o quanto é excitante preparar as malas, escolher a roupa adequada às férias escolhidas, a expectativa de ver outras paragens, outros ares...enfim, férias Out!
 Desta vez, não farei malas, não terei programas turisticos, não verei outros cenários...será?

 Bom, acordei e disse para mim própria : estás de férias, não é?Então , pega na máquina fotográfica e imagina que estás de férias no Algarve.Tudo o que vires hoje, olha como se visses pela primeira vez.Olha a mesma realidade com outros olhos, com olhos de turísta de férias.
O sol, afável e simpático, aqueceu o dia! De ténis , desportiva, saí do "meu hotel" e lá fui passear!
Totalmente à deriva, parei ao acaso.Estou de férias!Que interessa o sitío onde páro?
Andei pela praia!
Cumprimentei casais estrangeiros que estoicamente, estendiam os seus corpos ao sol.
Um senhor, de barbas brancas, com gorro na cabeça, casaco de pescador, saco de plástico namão, pergunta-me se sou portuguesa.Espanta-se que , vivendo eu em Portimão, ande a tirar fotgrafias e, segundo ele:" tal e qual uma turísta!"
Este homem, de ar rude, é uma sumidade em conhas!Ali mesmo, no meio da praia, recebo uma lição universitária, com direito a douturamento, sobre conhas, rochas e artefactos.Na palma da mão, estão minúsculas conchas, búzios e um ouriço( diz-me que é o mais pequeno do mundo).Desenrola um fio de nomes em latim...sabe o nome de cada uma! Pasmo-me com tanta sabedoria!Ficamos a conversar longos minutos e mostra-me toda a sua raiva na falta de critérios ambientalistas, nos crimes inflingidos no Rio Arade com as dragagens para o tornar comercial, etc, etc. Oiço-o e penso : aqui está um D.Quixote lutando contra as pás do moínho!
Pede-me, por fim, o segredo do seu nome!Eles odeiam-me!Sou persona non grata!Se disser a alguém que esteve a falar comigo, dir-lhe- ão : "esse doido!!!".
E assim, tal como apareceu à minha frente, esvai-se, sem antes procurar na areia que pisamos, conchas, búzios e réstias de um coral do Rio Arade( segundo ele) e pôr na minha mão.Diz-me :leve e comece a sua própria colecção.A minha tem mais de 80 mil!Já agora...acabaram com a sardinha, bandidos!
Vejo o seu vulto, curvado a afastar-se...de saco na mão lá vai explorando o mundo pequeno que pisa.
Olho para a minha mão...nela estão as conchinhas, os búzios que um homem de barba branca me ofereceu!
Mas, mais importante que isso, apercebi-me que se não fosse turísta na minha própria cidade, jamais teria tempo para ouvir aquele homem e ver que debaixo dos meus pés está um universo de sabedoria!
Sorri...abri os braços, fechei os olhos e deixei o sol beijar a minha pele ! Estou de férias...tenho tempo para tudo!
Clic...clic...clic...fotos e mais fotos!
Estas férias prometem!!!!
EME

ESCREVER A MULHER NUMA TELA!

http://www.youtube.com/watch?v=b5x-gVTpSCo

DESPOJOS NO LEITO DE UM RIO

Nesse lamaçal
Repousas aberta!

O Rio recuou,
matreiro...
Fugiu !
Deixou à mostra a nudez de despojos
perdidos em seu leito!


Vi-te assim, aberta...vazia...suja!


Pensei...
Que sonhos já transportaste!
Que encontros secretos já presenciaste!


Quantas viagens já fizeste?
Quantos mundos já correste?

Quem , em ti, depositou as alegrias de um partir com regresso marcado?
Quem, em ti, fechou as memórias de uma vida e saiu para nunca mais voltar?

Repousas agora, abandonada!
Despojada da tua própria missão...
És apenas o espelho de ti própria
na forma de um esqueleto sem vida,
no leito de um rio... no meio do lamaçal.

Tive vontade de te resgatar...
Trazer à vida as tuas memórias!
E dizer-te que afinal..
Um dia...
Tal como tu,
Estarei eu  também desnudada...abandonada...suja
num leito de um Rio...

Estarei em repouso,
esperando que alguém
passe sem destino,
E repare em mim,
tal como reparei em ti!
EME
Foto : EME

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A VIAGEM DE UMA VIDA

 EXCERTO DE UMA BIOGRAFIA

I

São 23 horas! Lá fora reina o silêncio de uma guerra com horas marcadas.
A menina, já mulher, que docemente lhe chamam Cita, aconchega-se nos lençóis, pensando que os homens apenas se tornaram crianças e, por breves instantes, resolveram a brincar às guerras!
Amanhã, quando acordar, tudo estará com dantes: A avó estará à sua espera com uma taça de flocos, como só ela sabe fazer; a colega de sempre, estará junto ao portão, de mochila às costas, seguindo juntas para o liceu; a Laica, fiel companheira, ladrará à sua passagem dando-lhe os bons dias. Amanhã, quando acordar, o seu mundo estará no mesmo lugar, no ponto onde tudo era perfeito!
Fecha os olhos …adormece….
-Cita…Cita…acorda filha… rápido! Chegou a hora!
A voz soa-lhe a familiar, mas a mensagem é-lhe profundamente estranha e perturbadora. O pai junto à cama, mostra-se ansioso e Cita percebe de imediato que o sonho morrera e que a partir daquele momento, a realidade dura de uma guerra que não compreende, definiria a sua vida e tudo seria diferente.
As regras estabelecidas à muito, são cumpridas a rigor: luzes apagadas, silêncio absoluto…! Tudo se faz mecanicamente como se o chão fosse algodão e na escuridão, brilhasse o mais esplendoroso sol.
Obedece em silêncio! Os gestos, vezes sem conta ensaiados, como se de uma peça de teatro se tratasse, têm hoje a sua grande estreia! Hoje não é ensaio, hoje é a sério!

À meia-noite, em ponto, começa a viagem! E que viagem!
Pensou dentro da sua inocência que seria uma grande aventura e no regresso, levaria alguns serões a contar as peripécias. Seria concerteza considerada uma heroína e esse pensamento encheu-a de vaidade!
Breve foi o seu devaneio! Olhou em redor e na carruagem onde estava, cheirava a tristeza, dor! Percebeu que a aventura não era de descobertas, de mistérios, mas de perdas, de vidas interrompidas e sonhos desfeitos.
Fixou o olhar naquela senhora de meia-idade que tricotava sem cessar! Pensou: deve estar a fazer uma camisola! E, com a velocidade com que cruzava as agulhas e passava a linha, logo logo, a camisola laranja e verde, andaria cobrindo o corpo de alguém!
Estranhou o olhar parado, distante, sem luz, daquela senhora! Se não prestar atenção, ainda fica um buraco na camisola – pensou!
O barulho de um forte apito e do movimento brusco do comboio em movimento, trouxe-a de volta! Agora era o cheiro que a incomodava.Comida...cheiro de comida! Achou que estava tudo louco!
Então, este não é o mesmo comboio que a levava todos os anos para as férias grandes, na praia? Isto é uma simples viagem, ora essa! É preciso levar tanta comida, tanto saco, tanto trapo?
Reparou que ao seu lado, ia apenas um saco da TAP de viagem e o cão de peluche (recebido à pouco tempo no aniversário)! Assim é que é, pensou! Para a viagem o indispensável, nada mais!!!!

-Cita, vê se dormes! Tens uma longa viagem pela frente e não sei se no barco vais ter condições para dormir! A mãe ao seu lado, arranca-lhe a fuga da realidade com esta frase!
Não ia para férias, não ia para a praia! Ia fugir da guerra! Dos homens que perderam a inocência e que resgataram, como se fosse deles, a sua vida!
Hoje, pela noite dentro, ia deixando para trás a única vida que tinha conhecido.A casa, a familia, os amigos, tudo ficava para trás.Nada voltaria a ser como dantes! E fazia-lhe muita espécie não entender isto! O porquê?
Cita sempre se tinha revelado uma criança curiosa e se a um “porquê?”, a resposta fosse um “porque sim”, levavam no retorno com mais “mas porquê?”. Esta curiosidade revelaria-se bem mais tarde, numa opção de vida!
Adormece embalada pelo movimento hipnótico do comboio...pouca-terra...pouca-terra...pouca-terra....

II
 Ao chegar ao cais vê que não está só!
São milhares de pessoas. Precisamente 2.640 pessoas. Este número ficará gravado na sua memória para sempre.
É este número que a acompanhará dois dias, espalhado pelo convés de um barco gasto. Não há um espaço livre, apenas buracos onde pessoas se encaixam, se amontoam.
Chega a hora!
A mãe, como todas as mães deste mundo, mostra-se firme, corajosa! No entanto, no seu olhar é só dor, é só saudade!
Mas sabe que o único caminho para preservar a inocência de uma menina de 14 anos, é pô-la naquele barco de minério, rumo a Luanda de onde seguirá para Lisboa na ponte aérea.
Não há saída possível! Aquele barco é a tábua de salvação para a filha, a sua princesa tagarela!
Num abraço em silêncio, totalmente em silêncio, mãe e filha, resgatam todo o amor, toda a cumplicidade e, por momentos, esquecem tudo o que existe lá fora.
Não falam no tempo que estarão separadas, não falam da incerteza desta viagem, do desconhecido mundo que irá encontrar noutro país que embora fale a mesma língua, nunca viu, nunca cheirou.
Cita, como sempre, tenta ver o lado positivo da vida e com as lágrimas a correr pela cara, sorri e diz à mãe:
 - Deixa lá mãe! O Cabeto (diminutivo que adoptou para chamar o irmão, Carlos Alberto) foi à tua terra passear, mas foi sempre de avião.Olha para mim, sou muito mais importante: vou de comboio, de barco e de avião.Diz-lhe isso ao chegares a casa! E, não te esqueças: no Natal, quando regressar, quero aqueles óculos de sol amarelos para parecer um girassol!
A mãe sorriu! Percebeu (ah! como as mães percebem tudo...) que a tagarelice era para esconder o medo lhe assaltava a alma.A dor da partida era visceral, física, insuportável...

III
- Com licença...por favor, deixe-me passar...
 Cita correu, furou por entre aquele mar de gente para chegar ao topo do barco.Precisava de acenar à mãe; precisava de a ver; precisava de lhe dizer só com o olhar: “Estou aqui, está tudo bem!”
Após enorme esforço, conseguiu um lugar privilegiado. Dali podia ver toda a costa. No cais, centenas e centenas de contentores com histórias de vida lá dentro. Irão, também eles, viajar para o outor lado do oceano.
Fixou o olhar num vulto, com calças de sarja azul e uma camisola cor-de-rosa! Era a sua mãe, sentada em cima de um contentor.
Levantou a mão e acenou-lhe...acenou-lhe...acenou-lhe…
À medida que o barco de minério sulcava as ondas, aquele vulto foi ficando cada vez mais um ponto pequeno, pequenissimo na linha do horizonte.
Foi dinimuindo, diminuindo, diminuindo...já nada havia ao fundo...só o mar!
 - Assim ficas com dor no braço de tanto acenar.Já não está lá, vês? É só mar! Diz-lhe a senhora que, supostamente, seria o seu anjo da guarda nesta viagem!
Cita, olhou-a e com o rosto cheio de lágrimas e respondeu-lhe:
 - Não preciso de a ver para saber que ela está lá!
Baixou o braço, aconchegou o cão de peluche contra o peito e deixou-se ficar ali, naquele lugar e, durante dois dias, ali ficou olhando a linha do horizonte: e via a mãe, sentada num contentor, a fazer-lhe adeus!
E a viagem tinha começado! A viagem de uma vida, para toda a vida!
EME
Tela de Mário Pacheco




"MY SECRET LIFE" * Fotos EME * VIDEO fjmme * MÚSICA Leonard Cohen

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O BEIJO DE KLIMT

DISSERTAÇÃO SOBRE O AMOR E A PAIXÃO

Sou fascinada por este quadro!
Não entendo o porquê, apenas sei o que sinto quando o contemplo.
Sou aquela mulher, em abandono total, recebendo a caricía daquele beijo!
Neste beijo está tudo : a mais profunda ternura , misturada com o mais intenso erotismo!
Esteticamente perfeito, "O BEIJO" de Klimt,  transporta-nos para a dimensão diurna e nocturna do Amor.
A simbologia diurna do Amor, remetemos para àguas calmas de um rio, onde tudo flui suavemente!
Na dimensão nocturna do Amor, redefinimos a palavra e chamamos-lhe Paixão!
Aqui a paz, a serenidade dá lugar ao caos das emoções.Consumino-nos, consumindo o outro!
Não há espaço para o outro!
Para o Amor temos duas variavéis na mesma equação : o EU e o OUTRO!
Num movimento dialético, o dar e o receber conjugam-se na primeira pessoal do plural : NÓS!
Para a Paixão existe apenas o sentimento que se alimenta a si próprio.Sobrevive e vive, mesmo sem a presença do objecto amado.É avassalador, deixamos sem vontade própria e vivemos na escuridão!
Repenso!Se é assim tão mau, tão destruídor, porque corremos atrás dela?
Poucos são os que dizem :"Quero enamorar-me"!Dizemos antes:"Quero apaixonar-me"!
Queremos sentir formigueiro na barriga, queremos transpirar só de pensar na possibilidade, queremos ter insónias a imaginar o fogo dessa paixão, enfim...queremos viver na NOITE, protetora de todos os segredos.
Em oposição o Amor, o enamoramento, é DIA...tudo está lá à vista, com segurança, com calma, suavemente sentimos e saboramos a ternura de um gesto, de um afago, de um beijo!

Então, encontro a explicação do meu fascinio pelo "O BEIJO" de Klimt!
Num só beijo, o Amor funde-se com a Paixão!
Num só beijo, vejo a possibilidade de amar apaixonadamente com PAIXÃO ou, com paixão enamoradamente AMAR! E isso é dádiva apenas para os Deuses!

EME





HÁ MÚSICAS QUE SÃO POEMAS!

RESGATE DO TEMPO


Quero resgatar o tempo,

Quero cativá-lo em mim!


Quero torná-lo meu amante,

Dar-lhe as horas do meu desejo,

E embalá-lo em meus braços!


Quero torná-lo meu escravo,

Tirar-lhe a liberdade,

Ordenar eterna obediência!



Ó Tempo...

Ó Tempo...



Que me levas as cores dos meus sonhos,

Que me roubas a firmeza do meu corpo,

Que mordaças a minha loucura de viver!


Ó Tempo...

Ó Tempo...

Sem tempo fica a vida,
E eu fugo desse tempo que me rouba tempo de vida!
EME

O HOMEM DE BARBAS BRANCAS QUE USAVA CHAPÉU

Cruzei com um homem de barbas brancas!
Seu rosto parecia uma montanha cheia de sulcos que a neve branca tinha coberto.
Seus olhos, verdes, enormes traziam histórias de uma vida plena.Neles brilhavam ainda a esperança, a vontade de pegar na vida e torná-la sua amante.
Olhou-me!
Deixei que o seu olhar cativasse o meu e, de forma maliciosa, entrei na sua alma!
Encontrei a dor logo ali, sentada à entrada!
A solidão estava estendida, como se de uma carpete tratasse!
Entrei devagar para não assustar os fantasmas.Queria travar conhecimento com cada um e tratá-los por tu!
Mais à frente encontrei numa biblioteca...livros, muitos livros!Cada um com um nome inscrito : A Constança, A Paula, a Teresa, o Zé, o Manuel e por aí adiante.Estavam catalogados, ordenados, expostos numa harmonia sinfónica.
Havia livros que pareciam novos, como se tivessem sido comprados apenas para exposição.Havia outros que tinham sido abertos, fechados, reabertos, lidos e relidos.Estavam gastos de tanto uso.
Continuei a minha viagem pela alma deste homem de barba branca!
Entrei em labirintos, quartos escuros, corredores infindáveis!
Por fim, sem que desse conta, entrei num jardim!E que jardim!Ali estavam todas as flores, todos os odores, todas as cores...tudo intacto!Vi um banco num recanto...sentei-me para admirar aquele lugar tão escondido nesta alma.Pensei: será que todos aqueles livros alguma vez foram lidos aqui, neste jardim?Se sim, então porque não estão aqui, espalhados pelos canteiros, abertos nestes recantos floridos?
Deixei-me ficar...
Fui ficando....
E, quando quis regressar, estava presa num jardim que crescia dentro da alma de um homem de barba branca, como flocos de neve e que , quando me olhou, tinha na cabeça um chapéu!
EME
FOTO DE EME
 

CONTAS À VIDA

Quis fazer contas à vida!
Peguei num caderno, lápis e boracha e comecei!



Somei : familia + amigos + saúde + trabalho + paz+ alegria = Vivo assim


Subtrai : falsidade - inveja - indiferença - prepotência - egoismo = Quero viver sem isto


Multipliquei : Amor x Paixão x amizade = Não vivo sem isso
Dividi : o pouco que tenho : pelo muito que outros precisam = é bom viver assim

Feitas as contas, lembrei-me que tinha equações, potências, raiz quadrada, regras da adição e multiplicação...mas vi que não precisava de as usar porque as contas à minha vida estavam feitas.
Passei apenas para uma linguagem lógica o resultado e deu este silogismo :

"Se viver sem  isto
E se é bom viver assim,
Então não quero viver sem isso
Logo
Viverei assim!

EME

CAVALEIRA ANDANTE

Caminharei por esses trilhos como cavaleira errante, montada no meu cavalo de sonhos.


  Entrarei em florestas virgens e desbravarei a escuridão com a espada da minha coragem.


 Ouvirei no silêncio da minha solidão, vozes do meu amor e conquistarei todas a melodias.


 Transformarei todas as sombras em vida e serei a feiticeira de poçoes de mágicas de encantar.





Tocarei harpa em acordes doces suaves e neste encantamento,descansarás a tua alma.


Abandonarás a dor, a tristeza, a solidão...


Serei musgo , serei orvalho, serei raio de sol, serei o caminho que te levará de volta a prados verdejantes!





Sou uma cavaleira errante...


Parto de novo por caminhos desconhecidos...


Levo comigo a tua escuridão.


Vou abandoná-la no lugar mais inóspido que encontar.


 Escreverei no vento, o teu nome!
As coordenadas do teu prado verdejante!
A brisa soprará suavemente
Pisarás musgo macio
As tuas flores beberão o orvalho da manhã
O sol aquecerá a tua pele para nunca mais sentires o frio da solidão!

Sou uma cavaleira andante que cavalgou no dorso dos sonhos
E, numa floresta virgem, te encontrou!
EME




JULGUEI...

Julguei que a vida era bola de sabão
 Soprada
 Colorida...

Julguei que na palma da mão
Ficava permanente...
Crescendo...
Com multicores a bilhar

Julguei ver formas...
Movimento...
Hipnotizante...

Julguei que bola de sabão era sonho
Que na minha mão crescia
Leve como uma pena.

Julguei...
Julguei..,

E de repente...
Evaporou-se... esvaneceu-se no vento que passava.

E a vida que era bola de sabão
Soprada...
Colorida...
Molhou a minha mão
De lágrimas
Do sonho desfeito dentro de uma bola de sabão!
EME

ESTAÇÕES DO ANO

Primavera….(O DESCOBRIR)

Tudo é cor, tudo é vida ardente!
Sou girassol a desabrochar…
Apaixono-me ardentemente, todos os dias pela manhã!
Brilha o sol e perco-me…
Bebo vorazmente a paixão quente dos raios que me penetram!
Pela manhã, embelezo-me…perfumo-me de intensos odores.
 Reconheces-me e em cada pétala fica o sémen do seu olhar….
Em primavera, vivo sem pensar..quero a vida intensa…

Verão….(O AMADURECER)

Quente…
Transbordante…
Do calor intenso que retenho numa fugaz e intensa primavera
Ofereço-me…dou-me inteira, completa…
Aqueço os teus dias…
Corre o teu suor no teu corpo
Bafo quente do meu verão.
Secretamente contemplo-te…e dou-te mais calor.
Depois, sopro como brisa verão ao entardecer
 Vejo-te abandonado, relaxado, recompensado…
Sorrio maliciosamente…
 Volto ainda mais quente…
 Sem saberes, devoro cada gota que te cai desse corpo cansado.


Outono….(O SABER)

Semente que cai à terra…
Morro
Transformo-me
Renasço…
Tenho em mim inscrito todos os códigos genéticos…
 Uma intensa primavera
 Um ardente verão…
Outono…
Reciclo-me verdadeiramente, em cada momento…
Reformulo erros para se tornarem caminhos certos!
Reformulo o sofrimento para me tornar melhor…
Na terra húmida fecundo-me para renascer mais verdadeira, mais Eu!
Entrego-me na forma mais brilhante de um raio de Sol em plena primavera;
Dou o mais intenso calor de um dia de verão…
Vivo os momentos docemente… profundamente…
 Como se fosse o último segundo do resto da minha vida!


Inverno….(O PARTIR)

Adormecerei…
Hibernarei….
Serei pó!
Voarei em cinzas por oceanos…
Navegarei ao sabor das marés…
Serei primavera…
Serei verão…
Serei Outono…

Em campos floridos de girassóis, estarei lá em primavera!
Suores quentes teu corpo sentirá, serei eu em Verão!
Pisarás folhas castanhas, sementes secas, estarei renascendo em Outono!
Nas noites frias de Inverno, serei as tuas lágrimas em forma de chuva
Serei o frio, como fria é a morte
Serei neve que docemente cairá…
E quando olhares para o floco de neve que cai sobre ti
Agarra-o, acaricia-o.
Sou eu em forma de estrela, caída do céu para te olhar!
EME


EME
Portimão, 31 de Janeiro 2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O MEU BLOG

Após muito incentivo, arranjei coragem e tempo e criei o meu blog.
Não sei até onde irei e como irei!
Só sei que este espaço terá sempre a veracidade daquilo que sou e como sou.
Sem pretensões , sem vaidades!
Quero que neste espaço apenas esteja o meu pensamento que, na forma de escrita, será vestido para sair à rua!
Espero conseguir fazê-lo de forma elegante!

EME